As Células Estaminais
Ao longo da vida, o corpo humano vai sofrendo uma constante renovação dos tecidos de que é composto, devido ao desgaste a que é sujeito. À medida que algumas células envelhecem ou sofrem a invasão de agentes patogénicos e morrem, têm de ser substituídas por novos elementos de modo a que se mantenha o equilíbrio. A origem destes novos elementos encontra-se nas células estaminais, que permitem esta renovação constante devido a possuírem uma enorme capacidade de se multiplicarem e de se transformarem nos tecidos onde fazem mais falta. Assim, o que caracteriza as células estaminais é a sua capacidade proliferativa e a propriedade de se transformarem em vários tipos celulares (multipotência).
Células Estaminais da Medula Óssea
Devido ao potencial proliferativo e regenerativo das células estaminais contidas na medula óssea, estas têm sido o primeiro recurso nas terapias de reconstituição do tecido hematopoiético em situações de doenças do foro hematológico, genético ou oncológico. Nestas terapias, começa-se por eliminar as células doentes através de radio ou quimioterapia. Contudo, estes processos de eliminação não são específicos e acarretam ao mesmo tempo a morte de células normais. Assim, é necessário repor as células normais eliminadas, o que é feito através do transplante de medula, onde se encontram as células estaminais que irão refazer o tecido hematopoiético.
No entanto, este método só produz bons resultados quando existe compatibilidade suficiente entre a medula do dador e a do paciente. Assim, é necessário procurar outras fontes de células estaminais.
Células Estaminais do Cordão Umbilical
Num ser em gestação também se encontram células estaminais (células estaminais embrionárias), cuja capacidade de proliferação e de diferenciação é muito superior à das células adultas, e cuja função principal é gerar todos os novos tecidos que irão fazer parte desse novo ser. No momento do nascimento, essas células já se diferenciaram praticamente todas em órgãos e tecidos, mas ainda existem algumas células em circulação, nomeadamente na corrente sanguínea que circula entre a placenta e o recém-nascido. Quando a criança nasce e o cordão umbilical é cortado, estas células são normalmente descartadas em conjunto com a placenta, apesar do seu potencial proliferativo e regenerativo.
Doenças tratáveis
Já existe um leque alargado de terapias para as quais as células estaminais do sangue do cordão umbilical revelaram ser um recurso inestimável:
Doenças malignas:
o Leucemia linfóide aguda
o Leucemia mielóide aguda e crónica
o Leucemia mielóide crónica juvenil
o Linfoma de Burkitt
o Lipossarcoma
o Síndroma mielodisplástico
o Tumores sólidos (ex.: neuroblastoma, retinoblastoma)
o Doença de Hodgkin refractária
o Linfoma não-Hodgkin
Deficiências medulares:
o Anemia aplástica
o Anemia aplástica idiopática
o Síndroma de Blackfan-Diamond
o Disqueratose congénita
o Anemia de Fanconi
o Trombocitopenia amegacariocítica
o Síndroma de Kostmann
Hemoglobinopatias:
o β-Talassemia (anemia de Cooley)
o Anemia das células falciformes
Doenças metabólicas:
o Adrenoleucodistrofia
o Doença de Batten
o Doença de Gunther
o Síndroma de Hunter
o Síndroma de Hurler
o Síndroma de Lesch-Nyhan
o Síndroma de Maroteaux-Lamy
Imunodeficiências:
o Síndroma de Omenn
o Deficiência imunitária combinada severa
o Disgénese reticular
o Displasia tímica
o Leucodistrofia celular globóide
o Síndroma de Wiskott Aldrich
o Síndroma linfoproliferativo ligado ao cromossoma X
Outras doenças:
o Síndroma de Evans
o Osteopetrose
o Histiocitose das células de Langerhans
Investigação
Hoje em dia, as linhas de investigação mais activa centram-se em vários campos, nomeadamente:
• Melhoramento dos sistemas de recolha do sangue do cordão umbilical, de modo a minorar a possibilidade de contaminação e a optimizar a quantidade de sangue recolhido; LINK PARA ARTIGOS
• Melhoramento do sistema de transporte do sangue desde a maternidade ao centro de processamento e armazenamento, de modo a optimizar o método de acondicionamento em que se maximiza a viabilidade das células transportadas; LINK PARA ARTIGOS
• Optimização do processamento e criopreservação das células estaminais do cordão umbilical, de modo a minimizar as perdas de células estaminais, assegurar a sua viabilidade, optimizando os sistemas de congelamento e conservação em azoto líquido; LINK PARA ARTIGOS
• Desenvolvimento dos métodos de transplante das células estaminais, utilizando unidades múltiplas de sangue do cordão umbilical, transplantes não mieloablativos ou de condicionamento reduzido, e também através da expansão ex vivo das células estaminais e engenharia de implantação, para permitir um uso mais alargado das células estaminais em vários contextos. LINK PARA ARTIGOS
Um assunto ainda em acesa discussão está relacionado com a possível plasticidade das células estaminais, isto é, na possibilidade de estas células se poderem diferenciar em tecidos muito diversificados, o que poderá aumentar imensamente o seu potencial regenerativo. Muitas dúvidas ainda necessitam de esclarecimento nesta área de investigação, mas o futuro promete desenvolvimentos extremamente interessantes.